Cervicite: Dor na Relação Sexual, Causas e Tratamento Completo
A dor durante a relação sexual, conhecida medicamente como dispareunia, é uma queixa comum que afeta até 20% das mulheres em algum momento da vida. Uma das causas frequentemente negligenciadas é a cervicite - inflamação do colo do útero que pode causar desconforto significativo.
Como ginecologista e sexóloga com mais de 20 anos de experiência, vejo regularmente mulheres que sofrem com dor durante o sexo sem saber que pode estar relacionada a uma condição tratável como a cervicite. O diagnóstico precoce e tratamento adequado podem restaurar completamente o conforto e prazer sexual.
Importante: Este conteúdo tem caráter educativo. Sempre consulte seu ginecologista para diagnóstico e tratamento adequados.
O que é Cervicite?
A cervicite é a inflamação do colo do útero (cérvix), a parte inferior do útero que se conecta à vagina. Esta condição pode ser aguda ou crônica e afetar mulheres de qualquer idade, sendo mais comum durante os anos reprodutivos.
Essa inflamação no colo uterino pode apresentar secreção purulenta e/ou sangramento fácil induzido pela manipulação no colo do útero, seja durante o exame ginecológico, coleta do preventivo ou até mesmo durante a relação sexual.
Como a cervicite não é uma doença de notificação compulsória e os sintomas clínicos ou critérios para diagnóstico não são totalmente padronizados, os achados variam bastante na literatura médica.
Anatomia do Colo Uterino
Estrutura
- Ectocérvix: Parte externa visível durante exame
- Endocérvix: Canal interno que conecta vagina ao útero
- Zona de transformação: Área de transição entre os epitélios
- Orifício externo: Abertura do canal cervical
Funções Importantes
- Barreira protetora contra infecções ascendentes
- Produção de muco cervical
- Passagem para espermatozoides
- Canal de parto durante o nascimento
Tipos de Cervicite
Cervicite Aguda
- Início súbito dos sintomas
- Inflamação intensa
- Geralmente infecciosa
- Resposta rápida ao tratamento
Cervicite Crônica
- Sintomas persistentes ou recorrentes
- Inflamação de longa duração
- Pode ser não infecciosa
- Tratamento mais complexo
Sintomas da Cervicite
Importante Saber
Em torno de 70 a 80% das mulheres com cervicite não apresentam sintomas, ou seja, são ditas assintomáticas.
Nos Casos Sintomáticos, as Principais Queixas São:
- Corrimento vaginal com ou sem odor forte e cor diferente do normal
- Dor ou ardência ao urinar
- Sangramento entre as menstruações ou após relação sexual
- Dor durante o sexo (chamada de dispareunia)
- Vontade de urinar com muita frequência e urinar aos poucos (polaciúria)
- Dor pélvica crônica (cólicas abdominais frequentes mesmo fora da menstruação)
- Febre (infecção mais grave - caracterizando Doença Inflamatória Pélvica ou endometrite)
Como a Cervicite Causa Dor na Relação Sexual
Mecanismos da Dor
Inflamação local:
- Edema (inchaço) do tecido cervical
- Aumento da sensibilidade
- Fragilidade dos vasos sanguíneos
- Resposta dolorosa ao toque
Alterações estruturais:
- Erosão do epitélio cervical
- Formação de úlceras superficiais
- Espessamento da mucosa
- Perda da elasticidade
Tipos de Dor
- Dor superficial: No início da penetração
- Dor profunda: Durante penetração completa
- Dor pós-coital: Após a relação sexual
- Sangramento: Pode acompanhar a dor
Principais Causas de Cervicite
Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)
Chlamydia trachomatis
- Prevalência: Causa mais comum em mulheres jovens
- Sintomas: Frequentemente assintomática
- Complicações: Doença inflamatória pélvica, infertilidade
- Diagnóstico: PCR, cultura, teste rápido
A infecção por clamídia é a infecção sexualmente transmitida (IST) bacteriana mais comum em países desenvolvidos como EUA e Reino Unido.
Neisseria gonorrhoeae (Gonorreia)
- Características: Infecção bacteriana
- Sintomas: Corrimento purulento, dor
- Complicações: Disseminação sistêmica
- Resistência: Crescente aos antibióticos
A gonorreia é a segunda IST mais comum no Reino Unido e nos EUA. Dados desde 2015 mostram aumento de mais de 43% das taxas de infecção de gonorreia em mulheres.
Outras ISTs
Herpes simplex (HSV-1 e HSV-2):
- Manifestação: Úlceras dolorosas
- Recorrência: Episódios repetidos
- Diagnóstico: PCR, cultura viral
- Tratamento: Antiviral
Trichomonas vaginalis:
- Sintomas: Corrimento espumoso, odor
- Transmissão: Sexual
- Diagnóstico: Microscopia, PCR
- Tratamento: Metronidazol
Mycoplasma genitalium:
- Causa emergente de ISTs em homens e mulheres no mundo inteiro
- Correlação significativa com cervicite
Infecções Não Sexualmente Transmissíveis
Candidíase
- Agente: Candida albicans principalmente
- Fatores de risco: Diabetes, antibióticos, gravidez
- Sintomas: Coceira, corrimento espesso
- Tratamento: Antifúngicos
Vaginose Bacteriana
- Causa: Desequilíbrio da flora vaginal
- Sintomas: Corrimento com odor
- Complicações: Pode ascender ao colo
- Tratamento: Metronidazol, clindamicina
Causas Não Infecciosas
Irritação Química
- Duchas vaginais: Produtos agressivos
- Espermicidas: Nonoxinol-9
- Preservativos: Látex ou lubrificantes
- Produtos de higiene: Sabonetes perfumados
Trauma Físico
- Relação sexual vigorosa
- Uso de brinquedos sexuais
- Procedimentos médicos
- Parto ou aborto
Alterações Hormonais
- Menopausa: Redução do estrogênio
- Amamentação: Hipoestrogenismo
- Contraceptivos hormonais: Alterações no muco
- Gravidez: Mudanças vasculares
Fatores de Risco para Cervicite
Principais Fatores de Risco
- Mulheres sexualmente ativas com idade inferior a 25 anos
- Novas ou múltiplas parcerias sexuais
- Parcerias com infecção sexualmente transmissível (IST)
- História prévia ou presença de outra IST
- Uso irregular de preservativo
Diagnóstico da Cervicite
Exame Clínico
Anamnese Detalhada
- História sexual completa
- Sintomas e duração
- Métodos contraceptivos
- Medicações em uso
- Procedimentos ginecológicos recentes
Exame Físico
- Inspeção externa: Vulva e períneo
- Exame especular: Visualização do colo
- Toque vaginal: Avaliação da sensibilidade
- Toque bimanual: Palpação de órgãos pélvicos
Achados no Exame Ginecológico
No exame ginecológico pode estar presente:
- Dor à mobilização do colo uterino
- Material mucopurulento no orifício externo do colo
- Edema (inchaço) no colo uterino
- Sangramento ao toque da espátula ou swab
- Friabilidade do colo uterino (colo amolecido e que sangra facilmente)
- Eritema: Vermelhidão do colo
- Úlceras: Lesões na superfície
Critério Clínico Importante
As infecções por Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae em mulheres, frequentemente, não produzem corrimento vaginal.
Entretanto, se no exame ginecológico for constatada a presença de:
- Muco-pus no colo uterino, ou
- Teste do cotonete positivo (sangramento ao toque), ou
- Friabilidade do colo uterino
A mulher deve ser tratada para gonorreia e clamídia, pois são os agentes mais frequentes da cervicite.
Exames Complementares
Coleta de Material
- Citologia oncótica: Papanicolaou
- Cultura: Para bactérias e fungos
- PCR: Para ISTs específicas
- Teste de pH: Papel indicador
Exames Específicos
- Chlamydia e gonorreia: PCR, cultura, teste rápido
- Herpes: PCR, cultura viral
- Trichomonas: Microscopia, PCR
- Candida: KOH, cultura
Vale ressaltar: Nenhum desses testes tem 100% de sensibilidade e especificidade. Ou seja, mesmo com testes negativos, se o quadro clínico é típico, deve-se tratar para evitar evolução para complicações.
Tratamento da Cervicite
Objetivo do tratamento: Prevenir sequelas da doença, como doença inflamatória pélvica, abscesso tubo-ovariano, gravidez ectópica e infertilidade. Durante a gestação, os objetivos do tratamento também incluem a prevenção de complicações periparto e infecções neonatais.
Tratamento Antimicrobiano
Chlamydia
- Primeira linha: Azitromicina 1g dose única
- Alternativa: Doxiciclina 100mg 2x/dia por 7 dias
- Gravidez: Azitromicina ou amoxicilina
- Parceiro: Tratamento simultâneo obrigatório
Nota: Em 2018, as diretrizes do Reino Unido foram atualizadas para recomendar doxiciclina como tratamento de primeira linha para qualquer infecção por clamídia diagnosticada.
Gonorreia
- Primeira linha: Ceftriaxona 500mg IM dose única
- Combinado com: Azitromicina 1g VO
- Resistência: Teste de sensibilidade
- Parceiro: Tratamento simultâneo
Herpes
- Primeiro episódio: Aciclovir 400mg 3x/dia por 7-10 dias
- Recorrência: Aciclovir 400mg 3x/dia por 5 dias
- Supressão: Aciclovir 400mg 2x/dia
- Alternativas: Valaciclovir, famciclovir
Trichomonas
- Primeira linha: Metronidazol 2g dose única
- Alternativa: Metronidazol 500mg 2x/dia por 7 dias
- Resistência: Tinidazol 2g dose única
- Parceiro: Tratamento obrigatório
Importante sobre Parceiros Sexuais
Em relação aos parceiros sexuais das mulheres com cervicite, devem ser empregados todos os esforços para garantir que os parceiros sexuais da paciente nos últimos 60 dias sejam avaliados e tratados com o esquema recomendado.
No mínimo, o parceiro sexual mais recente deve ser tratado.
As relações sexuais devem ser evitadas por 7 dias após o tratamento.
Tratamento de Suporte
Anti-inflamatórios
- Ibuprofeno: 400-600mg 3x/dia
- Naproxeno: 250mg 2x/dia
- Diclofenaco: 50mg 2x/dia
- Duração: 5-7 dias
Analgésicos
- Paracetamol: 500-1000mg 4x/dia
- Dipirona: 500mg 4x/dia
- Para dor severa: Tramadol (prescrição médica)
Cuidados Locais
- Banhos de assento: Água morna
- Compressas frias: Para reduzir edema
- Evitar irritantes: Duchas, produtos perfumados
- Roupas íntimas de algodão
Tratamento das Causas Não Infecciosas
Irritação Química
- Identificar e remover o agente causador
- Suspender duchas vaginais
- Trocar produtos de higiene
- Usar preservativos sem espermicida
Deficiência Estrogênica
- Estrogênio vaginal: Cremes, óvulos, anel
- Lubrificantes: À base de água
- Hidratantes vaginais: Uso regular
- Terapia hormonal sistêmica: Casos selecionados
Principais Complicações Quando Não Tratadas
Complicações Locais
- Dor pélvica persistente
- Doença Inflamatória Pélvica (DIP)
- Infertilidade
- Gravidez ectópica (gravidez na trompa)
- Obstrução tubária: Aderências nas trompas
- Dano ovariano: Redução da reserva
Complicações na Gravidez
Riscos Maternos:
- Aborto espontâneo (primeiro trimestre)
- Partos prematuros
- Ruptura prematura de membranas ovulares
- Corioamnionite (infecção das membranas)
- Endometrite puerperal (infecção do útero pós-parto)
Riscos Fetais:
- Óbito fetal
- Baixo peso ao nascimento
- Retardo de crescimento intrauterino
- Infecção neonatal: Transmissão vertical
- Conjuntivite e pneumonia do recém-nascido
Prevenção de conjuntivite neonatal: Para prevenir a conjuntivite do recém-nascido são usados o Nitrato de prata a 1% ou a tetraciclina, na primeira hora após o nascimento, em todas as maternidades do país, como recomendação do Ministério da Saúde.
Prevenção da Cervicite
Práticas Sexuais Seguras
Uso de Preservativos
- Consistente: Em todas as relações
- Correto: Colocação e remoção adequadas
- Qualidade: Produtos certificados
- Lubrificação: Compatível com preservativo
Use camisinha: A camisinha é a forma mais eficaz de prevenir a cervicite e outras ISTs, apesar de não proporcionar 100% de proteção a recomendação é a proteção combinada.
Redução de Parceiros
- Monogamia mútua: Ideal para prevenção
- Teste de ISTs: Antes de relações desprotegidas
- Comunicação: Sobre histórico sexual
- Vacinação: HPV quando indicada
Higiene Adequada
Cuidados Diários
- Limpeza externa: Água e sabonete neutro
- Evitar duchas internas
- Secar bem: Após banho
- Trocar absorventes: Frequentemente
Após Relação Sexual
- Urinar: Remove bactérias da uretra
- Limpeza suave: Água morna
- Evitar produtos: Perfumados ou irritantes
- Observar sintomas: Nos dias seguintes
Testagem Regular
Faça testagem para IST regularmente: São disponibilizados testes rápidos de sífilis, HIV, Hepatite B e C nas unidades básicas de saúde.
Comunicação com Parceiro
Converse com seu parceiro sobre a importância do uso de preservativo, da realização de exames regulares e da importância de zelar por um relacionamento com lealdade e confiança.
Quando Procurar Ajuda Médica
Urgência Médica
Procure atendimento imediato se apresentar:
- Dor pélvica severa
- Febre alta (>38°C)
- Sangramento intenso
- Náuseas e vômitos
Consulta Ginecológica
Agende consulta se apresentar:
- Dor durante sexo persistente
- Corrimento anormal por >3 dias
- Sangramento pós-coital recorrente
- Sintomas urinários associados
Preparação para Consulta
Informações Importantes
- Início dos sintomas
- Características da dor
- Parceiros sexuais recentes
- Métodos contraceptivos
- Medicações em uso
Evitar Antes da Consulta
- Relação sexual: 24-48 horas
- Duchas vaginais: 48 horas
- Medicações vaginais: Conforme orientação
- Menstruação: Reagendar se possível
Impacto na Vida Sexual
Consequências Psicológicas
Ansiedade Sexual
- Medo da dor: Antecipação negativa
- Evitação sexual: Redução da frequência
- Tensão muscular: Vaginismo secundário
- Baixa autoestima: Sentimentos de inadequação
Impacto no Relacionamento
- Comunicação prejudicada
- Frustração do parceiro
- Intimidade reduzida
- Conflitos conjugais
Estratégias de Enfrentamento
Comunicação
- Conversar com parceiro: Sobre sintomas e limitações
- Expressar necessidades: Posições mais confortáveis
- Buscar compreensão: Mútua
- Explorar alternativas: Outras formas de intimidade
Adaptações Práticas
- Lubrificação adequada: Produtos de qualidade
- Posições confortáveis: Que reduzam pressão cervical
- Preliminares prolongadas: Aumentam lubrificação
- Ritmo mais suave: Reduz trauma
Prognóstico e Recuperação
Expectativas de Cura
Cervicite Infecciosa
- Taxa de cura: 90-95% com tratamento adequado
- Tempo de melhora: 1-2 semanas
- Resolução completa: 2-4 semanas
- Recorrência: Baixa com tratamento completo
Cervicite Não Infecciosa
- Melhora gradual: Após remoção da causa
- Tempo variável: Conforme etiologia
- Tratamento hormonal: Resposta em 4-8 semanas
- Cuidados contínuos: Podem ser necessários
Fatores Positivos
- Diagnóstico precoce
- Tratamento adequado
- Adesão à medicação
- Eliminação de fatores de risco
Fatores Negativos
- Diagnóstico tardio
- Tratamento inadequado
- Reinfecção
- Condições imunossupressoras
Vídeo Educativo
Veja o vídeo onde aprofundo sobre a questão de cervicite crônica e metaplasia de colo uterino:
🎥 Clique aqui para assistir no YouTubePontos-Chave para Lembrar
- A dor na relação sexual nunca deve ser ignorada
- A cervicite tem múltiplas causas, infecciosas e não infecciosas
- O diagnóstico correto orienta o tratamento específico
- A prevenção através de práticas sexuais seguras é fundamental
- O acompanhamento médico garante cura completa
- 70-80% dos casos são assintomáticos
- Tratamento do parceiro é essencial para evitar reinfecção
Próximos Passos
- Observe sintomas como dor, corrimento ou sangramento
- Mantenha práticas sexuais seguras
- Não ignore dor persistente durante o sexo
- Consulte seu ginecologista para avaliação adequada
- Procure um ginecologista regularmente para cuidar da sua saúde sexual
Lembre-se: Este post não é uma consulta médica e não substitui uma consulta médica. Sempre consulte seu médico de confiança antes de usar medicamentos pois eles podem ter contraindicações conforme suas comorbidades ou o diagnóstico que para você com certeza parece uma coisa, após o exame físico ou exames complementares pode ser outra doença completamente diferente do que você pensa.
Espero ter ajudado.
Sobre a autora: Dra. Franciele Minotto é médica ginecologista e sexóloga com mais de 20 anos de experiência. Especialista em disfunções sexuais e saúde íntima feminina.